• Felipe Pinho

A Linguagem enquanto construção e ação sobre o Mundo

Atualizado: Jul 30


1. Introdução


Esse artigo é fruto de um processo mais amplo e pessoal de compreensão dos fenômenos ligados à linguagem. Processo esse que se faz com angústia e preocupação. Preocupação porque os estudos da linguagem parecem estar dispersos em vários ramos da ciência que muitas vezes não trocam conhecimentos entre si, como a filosofia, a linguística, a psicologia, a sociologia, entre outros. Angústia porque, ao tentar montar esse quebra cabeça, encontro muito mais choques e divergências, algumas vezes entre simples conceitos ou denominações, do que diálogos e contribuições.




O que proponho nesse artigo é discutir a concepção da linguagem enquanto construção da realidade humana e ação dos sujeitos sobre o mundo, usando algumas contribuições da Psicologia, da Filosofia, da Pragmática e da Análise do Discurso.

Compreender a linguagem enquanto construção da realidade humana e ação do sujeito sobre o mundo é, ao mesmo tempo, integrar e superar duas outras concepções de linguagem, a concepção da linguagem enquanto representação do mundo e a concepção da linguagem enquanto uma língua, um código, um instrumento de transmissão de informações.

A linguagem, do ponto de vista desse trabalho, não corresponderia somente à língua, mas seria uma maneira que os sujeitos humanos encontram de significar a realidade, de construir a realidade humana a partir da realidade concreta.


2. A linguagem como representação


A finalidade da filosofia é o esclarecimento lógico do pensamento. (Wittgenstein, Ludwing. Tractatus Lógico-Philosophicus. 3º ed – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001: 4.112 ).


A concepção de linguagem enquanto representação do mundo, apresentada a seguir, se apoiará na leitura do Tractatus Lógico-Philosophicus de Wittegeinstein (2001), que considero ser uma obra que concentra muito bem as idéias dessa concepção.

A linguagem no Tractatus é considerada representacionista visto que ela tem como função primordial representar a realidade. Para Wittegeinstein os limites da linguagem são os limites do mundo.

Para o autor do Tractatus os nomes adquirem significado ao atuarem, na linguagem, como representantes (referência) de um objeto presente na realidade; um nome simboliza algo que ele nomeia. Essa representação é convencional, ou seja, a natureza do nome e do nomeado são diferentes. O significado de um nome é o objeto que ele nomeia.

Os nomes, presentes em uma figuração, não correspondem apenas às propriedades do nomeado, mas às propriedades que os nomeados possuem no contexto de uma figuração na realidade. Para que uma proposição seja verdadeira é necessário que a posição relativa do nome na figuração signifique a posição do nomeado no fato possível afigurado.

Os nomes seriam meras convenções. Poderíamos substituir a palavra cadeira, por exemplo, pela variável x: daria o mesmo. O importante é que tanto a palavra cadeira como a variável x, que representam um objeto em uma figuração, correspondam ao mesmo em um fato no mundo. Um nome isolado não tem significado, ele só tem significado ao designar um objeto no interior de uma proposição.

No caso da proposição, esta é composta de nomes (que mantêm relações projetivas que os conectam aos objetos que eles nomeiam) e ela relata um fato, ou seja, apresenta como esses nomes estão, ou podem estar, combinados na realidade. Se o que a proposição representa é algo que existe no real, ela é dita verdadeira. Se, ao contrário, o que ela representa é algo que não existe no real, ela é dita falsa. No entanto, o sentindo da proposição é independente de sua verdade ou falsidade. Assim como acrescenta Santos,


No que importa à lógica, esse sentido é aquilo que, sendo um fato, torna a proposição verdadeira, não o sendo, a torna falsa. (SANTOS, Luiz H. L. A essência da proposição e a essência do mundo. IN: Wittgenstein, Ludwing. Tractatus Lógico-Philosophicus. 3º ed – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001).


Dessa maneira o sentido de uma proposição é dado a partir do significado de seus constituintes e pela possibilidade sintática da ocorrência desses constituintes em proposições ou, dito de uma outra maneira, pela possibilidade dos objetos, que estão nomeados nela, se combinarem na realidade. Uma proposição pode ter sentido e ser falsa, pois ela pode representar algo que poderia existir, mas que, no entanto, ainda não existe.

Mais uma vez recorrendo a Santos temos que,


cada proposição é feita verdadeira ou falsa por uma porção da realidade, pela existência ou inexistência na realidade de uma tal combinação – um fato. Perguntar pelas condições lógicas em que uma proposição ganha sentido é perguntar pelas condições em que ela, através da articulação de símbolos que se referem a elementos da realidade – levada a cabo de determinadas maneiras, eventualmente indicadas por outras espécies de símbolos, os chamados símbolos lógicos – logra identificar o fato possível de cuja existência ou inexistência como uma porção da realidade depende sua verdade ou falsidade. (SANTOS, Luiz H. L. A essência da proposição e a essência do mundo. IN: Wittgenstein, Ludwing. Tractatus Lógico-Philosophicus. 3º ed – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001).


A proposição só pode existir pelo fato de a linguagem manter com a realidade um isomorfismo, no sentido de que compartilham uma mesma “forma lógica”. Para Wittegeinstein, haveria uma estrutura comum entre a realidade e a linguagem que a representa. Essa estrutura, ou de certa forma, essa “lei”, é o que garantiria a possibilidade da linguagem poder representar a realidade ou um fato da realidade. Essa estrutura é a lógica. O mundo de Wittgenstein é um mundo Lógico. A realidade seria constituída ou seguiria as normas da lógica, assim como a linguagem. Dessa forma, uma proposição poderia dizer algo a respeito da realidade, porque a relação que encontramos entre os elementos da preposição representa a mesma relação que encontramos entre os elementos da situação, ou fato.

Para o autor, a nossa linguagem também seguira outras “leis” ou regras, como a gramática, por exemplo. Assim, seria necessário aplicar um “modelo da lógica”, abstrair da proposição seus componentes materiais e os substituir por variáveis, para assim, obter-se um “protótipo lógico”, uma proposição que seria capaz de representar esse fato de forma geral, como uma equação matemática. Ao fazermos isso revelaríamos a forma lógica da preposição.

Assim, a leitura do Tractatus nos deixa entender que uma linguagem que não fale de objetos, não teria sentido. Por isso Wittegeinstein condenou as discussões a respeito da Ética e de Deus, visto que estes não são objetos, ou seja, não estão na realidade. A linguagem, nessa concepção representacionista, é vista como mera substituta da realidade. Os nomes seriam substitutos dos objetos e as proposições substitutas das relações entre estes. Ah! Sim! Sobre o resto, o que não se pode dizer, deve-se calar.


3. A linguagem como língua.

Nessa concepção, a linguagem é vista como um código, um instrumento de transmissão de informações entre sujeitos, uma língua. A língua, enquanto código, seria

um conjunto de signos que se combinam segundo regras, e que é capaz de transmitir uma mensagem, informações de um emissor a um receptor. Esse código deve, portanto, ser dominado pelos falantes para que a comunicação possa ser efetivada. Como o uso do código que é a língua um ato social, envolvendo conseqüentemente duas pessoas, é necessário que o código seja utilizado de maneira semelhante, preestabelecida, convencionada para que a comunicação se efetive. (Travaglia, 1997:22).

Assim a linguagem, nesta concepção, se resumiria ou teria o mesmo significado de língua.

O privilégio dado ao estudo da língua enquanto código dominou, durante décadas, os trabalhos lingüísticos. Duas escolas se destacam: O Estruturalismo saussuriano e o Gerativismos de Chomsky.

Saussure (2003), em “seu” livro póstumo Curso de Lingüística Geral, considerado um marco dos estudos estruturalistas na lingüística, apresenta uma dicotomia que, para ele, é primordial para o estabelecimento da Lingüística enquanto ciência: a dicotomia entre língua e fala. O objeto de estudo que a lingüística deve tomar para si é a língua, algo que seria “social” e universal. Como afirma Saussure, a “língua, distinta da fala, é um objeto que se pode estudar separadamente” (: 22). Ela seria “um objeto de natureza concreta, o que oferece grande vantagem para o seu estudo” (: 23) e ela seria o “produto social depositado no cérebro de cada um” (: 33).

Para Saussure, a língua sendo “social” (social = geral) significa dizer que ela independe dos indivíduos, da maneira como os indivíduos a utilizam subjetivamente; e mesmo não existindo, na verdade, apenas uma língua, mas várias, haveria algo universal a elas, uma mesma estrutura.

Nessa perspectiva, a língua, enquanto estrutura, poderia ser estudada. Poderiam ser estudados seus mecanismos, suas leis, sua formação. A fala, ao contrário, seria o lugar do caos.

Temos como exemplo forte dessa idealização a Teoria Gerativa de Chomsky, com a sua Gramática Universal e seus estudos baseados em um falante ouvinte ideal. Nessa teoria, o que seria universal e geral seria a competência, enquanto o individual seria a performance.

O falante ouvinte ideal não seria um falante ouvinte real, que utilizaria a língua em uma situação concreta e real, mas um falante ouvinte criado a partir de um uso hipotético e ideal da língua, ou seja, sem os problemas enfrentados em uma situação de comunicação.

A teoria Gerativa dominou por várias décadas grande parte dos trabalhos e estudos na área da lingüística. Porém, por seu forte apelo ao estudo do sistema e por desconsiderar outros pontos importantes concernentes ao discurso e ao usuário, começou a gerar insatisfação no meio lingüístico, o que acabou desencadeando o surgimento de várias outras correntes, que procuraram dar ênfase aos estudos da linguagem dentro de seu contexto de uso e de produção. Veremos a seguir um pouco da concepção pragmática.


4. A linguagem como construção do mundo.


4.1. A linguagem como Prática Social


Como vimos, durante várias décadas, dominaram a produção científica no campo da Lingüística, trabalhos inspirados principalmente em duas escolas: o estruturalismo saussuriano, com sua dicotomia entre a língua (sistema) e a fala (uso), dando privilegio à primeira, a língua, concebida como um uma estrutura, e a teoria Gerativa de Chomsky, com sua concepção de Gramática Universal e com seu par competência/desemepenho, dando privilégio à competência, concebida como uma conjunto de regras inatas presentes na mente dos sujeitos.

Na ânsia em encontrar um objeto de estudo para essa nova ciência, que satisfizesse os rigorosos critérios científicos inspirados nas ciências naturais e exatas do modelo positivista, a maioria desses estudos retirava a língua de seu meio natural e a estudava enquanto um objeto “inspirador” de si mesmo, ou seja, independente do falante (sujeito/usuário) e do contexto sócio-histórico no qual era produzida. Contra essas idéias e estudos, temos a Pragmática.

Uma definição bastante difundida da Pragmática, é que esta é “o estudo dos atos lingüísticos e dos contextos nos quais são executados” (Stalnaker, 1982). Essa concepção se apóia nos trabalhos de Austin (1990), sobre os atos de fala. Austin procura mudar a perspectiva do estudo do significado, que antes estaria inscrito nas palavras, ou seja, para compreender uma sentença bastava entender o significado de seus constituintes, para a perspectiva de que o significado de uma sentença só pode ser corretamente estabelecido quando se compreende e se estuda a situação e condição de uso desta sentença.

Essa mudança de perspectiva, do estudo da sentença para o estudo dos atos de fala, passa a compreender e considerar a linguagem a partir de seu uso e como uma forma de ação, de ato. A linguagem é vista então como tendo um objetivo, uma finalidade. Ela passa também a obedecer a certas convenções e normas sociais que a respaldem (não se pode dizer qualquer coisa em qualquer lugar).

Assim como acrescenta Danilo Marcondes S. Filho, em sua introdução ao livro de Austin, Quando dizer é fazer (1990),


Podemos afirmar, então, que quando analisamos a linguagem nossa finalidade não é apenas analisar a linguagem enquanto tal, mas investigar o contexto social e cultural no qual é usada, as práticas sociais, os paradigmas e valores, a “racionalidade”, enfim, desta comunidade, elementos estes dos quais a linguagem é indissociável. (...) a linguagem como ação, como forma de atuação sobre o real, e, portanto, de constituição do real, e não meramente de representação ou correspondência com a realidade. (:11).


Fairclough (2001), em seu livro Discurso e mudança social, propõe um modelo tridimensional de Análise de Discurso, compreendendo a análise da prática discursiva, do texto e da prática social. Para o autor,


O discurso é uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado. (...) O discurso contribui, em primeiro lugar, para a construção do que variavelmente é referido como ‘identidades sociais’ e ‘posição de sujeito’ para os ‘sujeitos’ sociais e os tipos de ‘eu’ (ver Henriques et al., 1984; Weedon, 1987)[1]. (...) Segundo, o discurso contribui para a construir as relações sociais entre as pessoas. E, terceiro, o discurso contribui para a construção de sistemas de conhecimento e crença. (: 91)


O discurso mantém com a estrutura social uma relação dialética, ou seja, ao mesmo tempo em que é construído por ela, contribui para sua construção.


4.2. A expulsão do paraíso. Quem mandou nomear?


Tu comerás o teu pão no suor do teu rosto, até que te tornes na terra, de que foste formado. Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar. (Livro do Gênesis: Condenação de Adão e Eva e expulsão do paraíso)


É nesse ponto que procuro distinguir a diferença entre língua e linguagem. A língua seria compreendida como código, ficaria restrita às palavras, e aos estudos da gramática. A língua, considerada aqui como código, teria significado estático, o tipo de significado que encontramos no dicionário, independente do uso e dos sujeitos. Já a linguagem seria compreendida enquanto a ação da língua, ou seja, a língua em seu contexto sócio-histórico de produção e de uso. O significado da linguagem, visto aqui como não estático (fixo), só se daria por meio da interação do sujeito com o mundo e com os outros. O sujeito, utilizando-se da linguagem, construiria o próprio mundo.


Sentava-se crocitando no escuro quando de repente despertou para a consciência e se descobriu. Ele não sabia onde estava ou como tinha começado a existir, mas respirou e teve vida, ele viveu. Tudo o mais à sua volta encontrava-se no escuro e ele não conseguia ver coisa alguma. (...) A terra era argila e tudo à volta dele era argila morta. (...) depois ele se sentou de novo em meditação refletindo sobre o que poderia existir em toda essa funda escuridão que o rodeava. (...) Ele então enterrou algo, mas não sabia o que era. E ao voltar encontrou naquele lugar um arbusto e a terra não era mais estéril, pois a argila nua estava agora coberta de arbustos e tinha grama também. (...) ele agora rastejava e sentia a água, e a terra, os arbustos viraram árvores e as árvores florestas. (RASMUSSEN, Knud. The Eagles’s Gift. In: FRANZ, Marie-Louise von. Mitos de Criação. São Paulo: Paulus: 2003).


Esse mito, que relata a criação do mundo, de uma tribo indígena do rio Noatak (Alaska-EUA), representa bem o que a grande maioria desse tipo de mito representa: o despertar da consciência. O próprio mito de criação católico, presente na bíblia, é também um exemplo típico. O que encontramos nesses mitos? A criação do mundo, do universo, das coisas, e principalmente do homem.

Se procurarmos uma explicação da psicologia junguiana a respeito desses mitos e de seus significados, veremos que eles representam a passagem do mundo do inconsciente que, ao ser nomeado[2] pelo criador, passa para o mundo da consciência. Se pegarmos, por exemplo, o simbolismo da escuridão como representando o inconsciente, teremos que ao nomear as coisas, ao tocá-las (como temos nesse mito), ou mais precisamente em “faça-se luz” (Gênesis), as coisas se iluminam, ou seja, adquirem uma luz que as tornam possíveis de serem vistas, o que representa a consciência delas.


No princípio criou Deus o céu e a terra. A terra, porém, estava vazia e nua: e as trevas cobriam a face do abismo; e o espírito de Deus era levado por cima das águas. Disse Deus: faça-se luz; e fez-se luz. E viu Deus que a luz era boa; e dividiu a luz das trevas. E chamou à luz de dia, e às trevas de noite; e da tarde e da manhã se fez o primeiro dia. (Livro do Gênesis).


E Deus fez o mesmo com todas as coisas...

As coisas não existiam antes de “Deus”, elas foram criadas por ele. E como ele as criou? Através da nomeação. Ele deu nome às coisas e elas adquiriram existência. Ou seja, as coisas passaram a existir a partir da linguagem, no momento em que foram nomeadas, significadas.

Se “Deus” existiu ou existe, é um questionamento sem sentido, ou pelo menos sem sentido para os objetivos desse trabalho, mas o que podemos argumentar é que o homem, ele sim, em algum momento, passou a existir. Não falo aqui do homem biológico, mas sim do homem lingüístico, o homem da linguagem. O ser humano adquiriu a sua existência enquanto humano no momento em que ele criou a linguagem, no momento em que ele utilizou a linguagem para criar o mundo ao seu redor, não o mundo-em-si (que também é sem sentido), mas o mundo humano, o mundo da linguagem.

As coisas-em-si já existiam antes mesmo do homem. Estão aí os estudos arqueológicos para nos provar isso. E durante milhares de anos o “projeto de homem” também existiu no meio dessas coisas-em-si, nesse mundo das trevas. Lá só podemos especular que o “projeto de homem” vivia como qualquer animal, em um mundo sem linguagem, ou melhor, em um mundo sem a linguagem da consciência. Em algum momento da história, o “projeto de homem” passou a se relacionar de maneira diferente com o mundo, com a natureza, com os outros homens, e com ele próprio. Ele deu nome às coisas. Ao nomear as coisas, o “projeto de homem” criou um outro mundo, em uma outra dimensão diferente da dimensão das coisas-em-si, a dimensão da linguagem, e foi transportado a ela, tornando-se homem, e “expulso do paraíso”, condenado a nunca mais ter acesso ao mundo-em-si, mas somente ao mundo da linguagem, ao mundo dos nomes, dos signos.

A questão da expulsão do paraíso cabe aqui, posto que apenas “Deus” tinha o poder de nomear as coisas, ou seja, de criar o mundo. A serpente prometeu a Eva que ela, ao comer a maçã, “abriria seus olhos” e ficaria tão sábia quanto “Deus”, deduzindo-se que assim ela também teria o poder de “criar” as coisas. O final “trágico” todos já sabemos e até hoje “temos de pedir perdão por esse pecado”.

O homem, ao adquirir o poder de nomear as coisas, de criá-las, o poder da linguagem, foi expulso do paraíso, ou seja, do mundo das coisas-em-si.

O projeto filosófico de “voltar às coisas-em-si” (e quem sabe um dia poder voltar ao paraíso e sair desse mundo falso das sombras, “mundo das aparências”) é impossível do ponto de vista humano, pois, para que o homem pudesse ver as coisas-em-si, ele deveria deixar de ser homem; e, mesmo assim, o que ele visse não teria qualquer significado e, se tivesse, não seria um significado compreensível para o homem. É por isso que no mito da caverna o homem que viu as coisas-em-si teve de morrer, posto que o que ele viu nunca poderia ser entendido, pertencer, nem ser aceito no mundo dos homens.

Jung também tem uma concepção parecida tal como nos apresenta Marie-Louise von Franz:


(...) temos de nos lembrar também de um outro fato, a saber, que nós não podemos falar de nenhuma espécie de realidade exceto em sua forma como conteúdo de nossa consciência. Como Jung assinalou, a única realidade sobre a qual podemos nos pronunciar é aquela da qual estamos cientes. (...) Em termos práticos, portanto, podemos asseverar que a única realidade que nos é possível mencionar ou com a qual efetivamente lidamos é a imagem da realidade presente no campo de nossa consciência (FRANZ, Marie-Louise von. Mitos de Criação. São Paulo: Paulus: 2003).


A única realidade que existe é a realidade da linguagem (quando falo em linguagem, falo de linguagem consciente, ou linguagem da consciência, visto que os estudos junguianos apontam para uma linguagem do inconsciente). Dessa maneira, a linguagem não é representativa do real ou de uma realidade, ela é a realidade.

O mundo não é composto por objetos em si, mas sim composto da construção, a partir da linguagem, desses objetos.

Essa concepção se assemelha àquela dos sofistas, na qual o homem, por ser a medida de todas as coisas[3], é impedido assim de ter sobre as coisas uma medida única. Um dos filósofos representativos dessa filosofia, Górgias[4], afirma que mesmo se pudesse conhecer o real não se poderia dizê-lo. Para ele a realidade não pode tornar-se nosso discurso, a linguagem não diz o real. A linguagem, dessa forma, revelaria apenas a própria linguagem.[5]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Fairclough, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora Universidade de Brasília (UNB), 2001.


FRANZ, Marie-Louise von. Mitos de Criação. São Paulo: Paulus: 2003).


MAINGUENEAU, D. Novas tendências em Análise do Discurso. Tradução de Freda Indursky. Campinas, SP: Pontes: Ed. da Unicamp, 1997


TRAVAGLIA, L.C. Gramática e Interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. 2. ed.São Paulo: Cortez,1997.


Wittgenstein, Ludwing. Tractatus Lógico-Philosophicus. 3º ed – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001).


Wikipédia, a enciclopédia livre. IN: http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal Site acessado em 17 de fevereiro de 2006.




[1] Citação do autor.

[2] Processo, entendido aqui, de transpor para o âmbito da linguagem um objeto concreto e real.

[3] Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas".

[4] Górgias de Leontini (480 a.C. - 375 a.C.) foi professor de retórica, filósofo e embaixador em Atenas.

[5] Fonte: Wikipédia – site: http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal.

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